ESPECIAL: A RODA DO TEMPO PARTE 1

A Roda do Tempo

“Um acontecimento histórico acontece, não uma, mas duas vezes” (Friedrich Hegel). Há pessoas que buscam encontrar padrões na realidade em que estão inseridas, seja nas ações que moldam o ser humano ou nas suas reações psicológicas a acontecimentos, como também em outros campos como a Exatas, onde nota-se que diferentes fórmulas físico-químicas utilizam um mesmo raciocínio matemático. Dentro da História, o pensamento também é o mesmo. Ao longo dos anos, teoremas que se apoiavam na premissa de que a trajetória do Homem é fadada a repetições sempre surgiram e foram defendidos por importantes personalidades como o já citado Hegel ou o polêmico Karl Marx, que em seu trabalho “O 18 de Brumário de Luís Bonaparte” disse que um acontecimento ocorre “uma vez como tragédia e a outra como farsa”. Uma rápida reflexão nos últimos fatos que permearam o mundo pode levar o leitor a sentir-se engajado a apoiar esse raciocínio, afinal, quantos processos revolucionários, por exemplo, não se basearam nos modelos anteriores de outros países que passaram por uma situação semelhante a trespassada atualmente por essa outra nação? Em relação a exatidão desse preceito, no entanto, não houve até hoje um consenso pleno, e assim, vez por outra, sempre surge uma nova figura para pautar-se nessa ideia e uma outra para derribá-la.

A Roda do Tempo

Mas, enquanto um aspecto como o constante reviver histórico é abordado como uma possibilidade ou teoria no mundo real, esse mesmo preceito pode ser tratado como norma ou código ao adentra-se no mundo fantástico. E se fosse convenção num universo fictício que a história cíclica fosse lei? E se a revisitação de mesmos fatos com o passar dos anos fosse regra de um mundo? É nesse pilar, portanto, que a série A Roda do Tempo, do escritor Robert Jordan, funciona e desenvolve sua trama: o futuro está pautado a rememorar os fatos que ocorreram no passado. Uma rápida transcrição de um dos trechos mais famosos da saga já é o suficiente para perceber essa ideia:

. “A Roda do Tempo gira, e Eras vêm e vão, deixando memórias que se transformam em lendas. As lendas desvanecem em mitos, e até o mito já está há muito esquecido quando a Era que o viu nascer retorna. Em uma Era, chamada por alguns de a Terceira Era, uma Era por vir, ume Era há muito passada, um vento se ergueu nas Montanhas da Névoa. O vento não era o início. O girar da Roda do Tempo não tem inícios nem fins. Mas era um início” (Livro 1 de A Roda do Tempo: O Olho do Mundo, Capítulo 1, página 19)

A Roda do Tempo

Renascimento. Retorno. Volta. Reaparição. Ressurgimento. Esses são termos que o leitor de A Roda do Tempo há de encontrar constantemente nessa grande série de Fantasia de quatorze volumes. Através dos seus protagonistas, os mesmos feitios que ocorreram numa outra época já distante pela pele de outros personagens hão de se repetir, até que posteriormente, através de um novo grupo de terceiros, esses mesmos acontecimentos ocorram novamente, e assim em diante. E o mais interessante disso tudo é que esse looping infinito não é de desconhecimento total dos sábios e eruditos da série. Muito pelo contrário, baseando-se nos acontecimentos passados, os conhecedores das regras desse universo procuram facilitar, ou preparar o caminho, para que esses eventos possam ocorrer novamente com mais “facilidade” no futuro, sem a interferência de forças malignas que tentam dificultar ou mudar o rumo desse Padrão. Algo semelhante ao que Confúcio falou: “Se queres prever o futuro, estuda o passado”. Do ponto de vista da série, o que isso implica? O surgimento de Profecias, que haverão de reger os passos dos protagonistas e predizer os seus destinos:

. “E muitos serão os seus caminhos, e muitos saberão seu nome, pois muitas vezes ele renascerá entre nós, sob diversas formas, como foi e sempre será, tempo sem fim. Sua vinda será como a ponta afiada do arado, revirando e sulcando nossas vidas a começar do ponto onde jazemos em silêncio. O destruidor de elos, o forjador de correntes. O fazedor de futuros, o desmoldador do destino” (Livro 3 de A Roda do Tempo: O Dragão Renascido, página 28)

A Roda do TempoExiste uma pequena exceção, porém, a essa norma: a cada vez que uma antiga Era regressa, sempre ocorre uma mudança no ciclo, isso é, não existe um reviver integral, homogêneo, daquela época, mas somente um determinado segmento volta, algo em torno de 99% semelhante ao original e aquele 1% vagabundo:

. “A Roda do Tempo tece o Padrão das Eras, e os fios que ela utiliza são vidas. Não é fixo, o Padrão. Nem sempre. Se um homem tenta mudar a direção da sua vida, e o Padrão tem espaço para isso, a Roda simplesmente tece e acomoda isso. Sempre existe espaço para pequenas mudanças, mas às vezes o Padrão simplesmente não aceita uma mudança grande, não importa o quanto você tente” (Livro 1 de A Roda do Tempo: O Olho do Mundo, capítulo 36, página 560)

Dessa maneira, o princípio que se pode postular para a lei que rege o universo cíclico de Jordan é: em seu cerne, os acontecimentos sempre reaparecem na história, mas lá no fundinho tem-se uma minúscula alteração, uma novidade nunca antes vista. Em semelhante modo, a história do Homem pode ser entendida como parcialmente repetitiva: os mesmos fatos retornam, mas cada vez sob uma nova roupagem, com diferentes grupos ou novas figuras inseridas.

A Roda do TempoO que difere, todavia, o mundo de A Roda do Tempo da realidade do ser humano é o porquê dessas constantes revisitações ao passado. Enquanto na série o renascimento de fatos é justificado pela maneira como o Criador fez o universo, isso é, por uma questão de regra (e por essa razão os conhecedores de tal padrão estão empenhados em auxiliar esse processo de repetição dos acontecimentos), no mundo real, uma das razões pelas quais os teóricos dão lógica a esse pensamento é o desinteresse social em se conhecer o passado, o que faz com que os mesmos erros de antes sejam repetidos no futuro (e assim, desassociado da saga, os historiadores estão mais afim de impedir esse retorno). Como disse o filósofo George Santayana, “O progresso, longe de consistir em mudança, depende da capacidade de retenção. […] quando a experiência não é retida, como acontece entre os selvagens, a infância é perpétua. Aqueles que não conseguem lembrar o passado estão condenados a repeti-lo”. Assim, por uma questão de alienação, o Homem é um ser fadado a tropeçar nos mesmos caminhos constantemente. No entanto, na saga criada por Robert, esse mesmo elemento do fenecimento do saber também funciona como um dos fundamentos da série:

. “[…] deixando memórias que se transformam em lendas. As lendas desvanecem em mitos, e até o mito já está há muito esquecido quando a Era que o viu nascer retorna”.

Em outras palavras, os acontecimentos que perpetuam as Eras fragmentam-se com os anos, tornando-se contos de fadas ou historinhas para assustar bebês. A veracidade de tais informações vai decaindo, de tal forma que se deixa de pensar nelas como fatos e passa-se a olhá-las apenas como lendas antigas. Além disso, as reais histórias têm seus relatos alterados com as décadas, ganhando elementos mais fantasiosos, ficando cada vez mais inverossímeis aos olhos da população:

. “Os que conhecem a verdade morrerão, e os netos de seus netos se lembrarão de algo diferente. E os netos dos netos deles, de algo ainda mais diferente” (Livro 4 de A Roda do Tempo: A Ascensão da Sombra, capítulo 20, página 324).

A Roda do TempoIsso implica que, não somente a população da série é em sua maioria alheia aos padrões das Eras, como os detentores de tais conhecimento do passado são alvos de constantes críticas e temeridade pela população, sendo considerados até mesmo uma ameaça por grupos ou manipuladores. Dessa forma, chega-se a dois princípios centrais que roldeiam a série: a história dos povos e civilizações é cíclica, revivendo os mesmos fatos já vividos num tempo há muito distante, como também os acontecimentos são fadados a decaírem do seu fundo de credibilidade pela população, por mais que tais fatos sempre retornem num futuro. Até que ponto esses pilares podem ser assemelhados com o mundo real (sem tentar tornar a obra alegórica, por favor), isso é totalmente discutível. Entretanto, fica a indagação: destrinchar feitos históricos e encontrar neles padrões que podem formar uma imagem daquilo que será o futuro pode ser encarado como um aspecto positivo ou uma questão a recear-se, dependendo da conclusão daquilo que se pode esperar para os próximos dias?

. “É por clemência dos anéis que as lembranças esvanecem – disse Amys. – Uma mulher sabe de certas coisas, bem poucas, que vão acontecer. Outras, ela não reconhecerá até ver a decisão diante de si, se for o caso. […] Se houvesse mulher capaz de entender como sua vida é urdida no Padrão da mesma forma que entende como um fio é cerzido em um carpete, ela levaria a vida de um animal. Isso se não enlouquecesse” (Livro 4 de A Roda do Tempo: A Ascensão da Sombra, capítulo 24, página 382)

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