Ao meu primeiro leitor, com carinho.Ao meu primeiro leitor com carinho.

Se lembra de mim? Provavelmente não, eu sei. Não começamos com o “pé direito”, e isso já faz anos. Quando cheguei na sua casa nem estava na lista dos mais desejados, fui comprado em uma mega promoção de “black friday”. Ainda bem que elas existem. Para falar a verdade, se não fosse aquela resenha me citando, você nem saberia de minha existência. Agradeço a Deus todos os dias por existirem blogs. literários, sem eles o que seríamos afinal? Quando não se é popular, ou bestseller, temos que contar com toda ajuda possível. Assim cheguei na sua casa, junto com aquela pilha de amigos, e fui parar no fundo da estante. Cada semana que passava eu sonhava em ser tocado, folheado, cheirado, enfim, ser lido para realmente ganhar vida. Mas nunca era escolhido. E você continuava comprando. Cada mês chegava mais concorrência, já estava perdendo as esperanças, me via respirando por aparelhos. Sei que não sou dos mais bonitos, não capricharam na minha capa, e sei também que não sou um “clássico”, acho que ainda faltará algumas décadas para tal, as pessoas são tão saudosistas nesta avaliação… mas sei que tenho potencial. Esperei bastante, mas meu dia chegou. Lembro como se fosse hoje, você me colocou nos braços, me folheou carinhosamente, meu coração bateu forte e nosso relacionamento começou. Não demorou muito tempo para me conhecer totalmente, contei toda minha história de uma vez! Qual problema com meus companheiros que sempre precisam de séries ou trilogias para se expressarem? Sempre me orgulhei de ser conciso e direto. Então em apenas uma semana de Inverno, entre alguns goles de café, eu pude fazer parte da sua vida. Indescritível os sorrisos que vi em seu rosto e algumas pequenas lágrimas também. Cada vez que você me citava para algum amigo, virtual ou não, eu me enchia de alegria. Acho que por um breve momento fiquei entre seus favoritos. Mas como quase tudo na vida, nosso amor se esfriou. Ou foi apenas um caso? Um flerte memorável. Sem razão para voltar a acariciar minhas páginas, voltei para estante. Você não sabe como a solidão me afetou. Aquele tempo de descaso, abandonado entre irmãos. Sei que você nutria um carinho por mim, mas eu desejava mais. Não dizem que quem sonha um dia consegue? Pois bem, você resolveu me emprestar para seu (ex)namorado. O sonho virou pesadelo, porque ele não me amou. Durante muito tempo me usou como porta objetos, e meu “rosto” que não era dos melhores foi acumulando manchas amareladas. Também não tinha carinho comigo, me esticava ao máximo em cada leitura, vivia me dobrando e me marcando de forma grosseira. Usou e abusou de mim sem afeto. Não me curtiu, por mim tudo bem, também o detestei. Vocês romperam o namoro e fiquei aprisionado aquela casa sem alma. Passou quase uma década, me sentia velho, sujo, quando ele resolveu me vender para um Sebo. Me senti desprestigiado quando fui negociado, mas melhor estar entre irmão mais velhos e sábios do que naquele “mausoléu” abandonado. Vivi alguns anos apenas observando o entre e sai de leitores mais experientes no meu hotel, afinal, nunca me senti “em casa” por lá. Ninguém me adotava. Doeu bastante, mas tive que superar. Um dia, estava dormindo quando fui escolhido! Senti novamente mãos delicadas massageando minhas juntas gastas e empoeiradas. Dizem que tem um charme sedutor cheiro de livro velho, que sorte a minha! Eu desejava amadurecer antes de envelhecer, mas para isso precisava viver mais. E com meu novo companheiro eu consegui. Tivemos um tórrido romance que durou algumas semanas, sim ele me saboreava devagar, mas ao término se tornou algo duradouro. Ele nunca me esqueceu, sempre me indicava e me emprestava com o devido cuidado para amigos selecionados. Fiz várias viagens, conheci jovens e adultos maravilhosos, mas sempre voltava para meu lar. Porem, apesar de realizado, confesso que nunca te esqueci. Você foi meu primeiro amor e até hoje me sinto traído por ter me cedido de forma tão despretensiosa, por não ter corrido atrás de mim. Você nunca demonstrou sentir saudade de me ter por perto de alguma forma. Isso até hoje me machuca. Mas eu cresci bastante nesta jornada. Sei que hoje não sou mais um “anônimo” necessitando de atenção. Já tenho fama e reconhecimento por parte dos leitores e até de alguns críticos literários, não que alguém realmente ligue para eles. Mas você acreditou em mim quando ninguém mais o fez. Gostaria de um dia voltar a poder dormir ao seu lado. Não sei se esta carta será o bastante para te convencer disso. Já faz muito tempo, mas como o amor de verdade é incondicional, estarei sempre aqui te esperando. Devem ser “clones” não sei, vai entender essa tecnologia toda, mas soube que minha vida continua embalsamada nas páginas de irmão idênticos a mim à venda em todo lugar. Escolha um, me leve de volta pra casa. Eu te amo.

P.S.: Eu ainda vou virar um “clássico

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