FICHA TÉCNICA

ARARUAMA: O LIVRO DAS SEMENTES
Autor: Ian Fraser
Ano de Lançamento: 2017
Editora: Moinhos
Nº de páginas: 256
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SINOPSE

Em Araruama, o momento do nascimento é um ritual sagrado. Monâ, a mãe do tempo e de todas as coisas, costura a duração de vida dentro do corpo de cada criança. Ao som das palavras de Majé Ceci após o parto, cada destino é selado: Kaluanã, nascido para uma vida mais longa que os números podem dar conta; Obiru, o capanema que morrerá jovem, destinado a descascar mandioca sob o olhar de desgosto do pai; Apoema, a que vê além e sonha em voar.

Em O Livro das Sementes, o primeiro volume da série, o leitor é transportado para uma realidade dura e encantada, onde as palavras são magia, a fl oresta é o mundo e forças determinam o equilíbrio da Ibi, a terra. A harmonia se baseia nas regras dos deuses, onde morte e vida, caça e caçador convivem até que a luz se apague.

Mas este ciclo tão familiar pode estar com os dias contados, pois sobre a Ibi se espalha um sentimento novo e incômodo: uma “fome sem apetite”, uma paixão pelas pedras derretidas. É o anúncio de que tempos sombrios estão por vir, sob formas nunca vistas antes – e os destinos das crianças de Araruama estão tão entrelaçados como raízes retorcidas.


RESENHA – ARARUAMA: O LIVRO DAS SEMENTES

Vivemos em um tempo de crenças, de rituais e de transformações. Caminhamos sob o vendaval da mudança, a metamorfose de Ibi atinge a todos nós. Não há árvore frondosa que nos guardará das maleficências da vida. Nosso aman paba já foi concebido, nosso destino está traçado sob os olhares dos astros. Aram e Airequecê vigiam do alto nossas ambições e anseios. O mundo está mudando, uma forte tempestade se anuncia, sangue será derramado, vidas ceifadas e o inominável desejo de matar corroerá a esperança de viver. O amarelo jaz na ganância. E no palco desta tragédia, cinco jovens de personalidades únicas caminharão pelos vales da incerteza.

Araruama

“Algo de estranho acontece com o homem quando ele se vê cercado por tanto mar. Ele aprende que a sede da ibi é muito maior que a dele e não há nada maior que o reflexo do céu.”

Ian Fraser consegue em pouco mais de 200 páginas, nos levar na esteira de um mundo fantástico, crível e insinuante. Confesso que estou até agora refletindo sobre toda a estrutura narrativa, sobre a riqueza criada de maneira tão minuciosa, tão profunda. Araruama é como um breve passeio por um dos locais mais instigantes que você poderá conhecer. Tudo é moldado tal qual um quadro, que por ora esbanja bravura, vingança, sangue e caos, e em seguida nos faz deleitar pelas passagens verdejantes de esperança e perseverança. Araruama é o futuro. Uma janela para nossa cultura, nossa identidade perdida pelas areias do tempo. Araruama é incrível!

“Destruir é sempre mais fácil que construir. Uma simples lança pode roubar todos os amanhãs de uma luz forte, e basta apenas uma mentira para desturir uma confiança duramente conquistada. Como é que você pode passar um tempo sem fim esfregando madeira para criar fogo, mas um suspiro errado pode facilmente apagá-lo?”

No livro acompanhamos a trajetória de diversos personagens, todos tão bem criados que no momento em que aparecem, somos arrebatados como se fôssemos velhos conhecidos. A individualidade de suas qualidades e defeitos ficam latentes à medida que avançamos pela história. Obiru, Apoema, Kaluanã, Eçaí e Batarra Cotuba são criações formidáveis. Guerreiros de um tempo há muito perdido. Lutando cada qual pela glória e pelo reconhecimento. Uns vivem à beira das trevas, no lado escuro da lua. Outros possuem um horizonte de luz e de sucesso sob os olhares de Aram. Cabe a nós velejar na companhia destes nativos, que a cada página aprendem um pouco mais sobre o que está destinado para si. Tribos vivem na eminência de um ataque dos Anhaguera, um novo Turunã se aproxima, e somente os mais bravos e corajosos receberão de Majé Ceci seu eçapira. E quando uma tragédia se faz presente, o futuro é incerto.
Araruama

“Um homem que só tem olhos para a certeza não sabe apreciar a cor da dúvida. O seu amanhã é só seu, Apoema, e o que você fizer, fará por escolha própria. Eu posso ver seu amanhã como você vê o seu ontem, mas, às vezes, nós vemos coisas que aparentam ser algo, mas quando nós nos aproximamos, elas se revelam outro algo.”


SENTENÇA

Araruama possui praticamente uma linguagem inteiramente própria – vide as palavras estranhas que você encontrou por esta resenha. A cada página descobrimos novas palavras de uma cultura que pouco valorizamos. O autor para nos auxiliar, reservou um gigantesco glossário no final do livro. Entretanto, a genialidade da obra é tão grande, que em e=nenhum momento você precisará necessariamente de qualquer auxilio. Tudo flui de maneira tão natural e objetiva, que de maneira igualmente fantástica nos sentimos no olho do furacão. Araruama possui criaturas fantásticas e aterrorizantes, além de todos os adjetivos que tornam este livro uma leitura indispensável. Neste momento cabe o sentimento de dizer que nos sentimos orgulhosos de sermos brasileiros e sermos tão bem representados por este autor. Ian Fraser é o grande maestro de uma orquestra sem igual. Araruama é o inicio de uma grande jornada.

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