ESPECIAL: A RODA DO TEMPO PARTE 2

Pode ser um pouco complicado entranhar nesse aspecto da fonte inspirativa de um autor para escrever um livro, principalmente se esse for muito conhecido e renomado, afinal de contas, não obstante a sensação de plágio que alguns podem ter do escritor ao lerem o material original que o influenciou, ou decepção por terem se iludido achando que um livro era original, os fãs mais hardcore de uma obra sempre ficam com uma pulga atrás da orelha ao verem comparações de uma série que gostam muito com uma outra que dizem ter feito o mesmo que ela bem antes.

Todavia, a realidade é que discussões desse tipo sempre ocorreram, ocorrerão, e são até certo ponto necessárias para a socialização de leitores e a possibilidade de trocar ideias. Resta, no entanto, saber se o objetivo dessas comparações é rebaixar o material de um autor, evitando que ele seja comprado pelos novos ledores, ou apenas acrescentar informações sobre os bastidores de um livro, em outras palavras, explicar como tal obra tomou o seu escopo final.

A Roda do Tempo

No campo da Fantasia, uma longa briga que se tem perpetuado ao longo dos anos é a entre O Senhor dos Anéis e As Crônicas de Gelo e Fogo. As comparações buscando concluir qual obra é a melhor ou incitar cópias de um dos autores do material do outro são inevitáveis nas redes sociais e em conversas nos eventos literários. Todavia, com a chegada ainda recente de uma outra série no Brasil, duas novas discussões surgiram nos grupos de livros: trata-se da saga A Roda do Tempo, do autor Robert Jordan, e as indagações “Ele plagiou Tolkien?” e “Tudo que o Martin fez em A Guerra dos Tronos foi tirado de A Roda do Tempo”.

E agora? Como encarar essas novas polêmicas a cada dia maiores entre os leitores de Fantasia? A começar pelo instigante comentário sempre presente nas capas das edições brasileiras dos livros da série de Jordan:

“Com A Roda do tempo Jordan chega para conquistar o mundo que Tolkien começou a difundir” (The New York Times)

A Roda do Tempo

O paralelismo aqui é forte, afinal, trata-se de uma analogia a uma obra já marcada na história e com uma imensa legião de admiradores mundo afora. Ao iniciar-se a leitura do primeiro livro da série então, O Olho do Mundo, as sensações de dejà vu podem ser pertinentes até certo ponto da história. Mas o que se pode concluir dessa semelhança? Que fim leva esse longo debate?

É necessário entender, inicialmente, alguns aspectos em relação a essas três séries. Do ponto de vista cronológico, As Crônicas de Gelo e Fogo vem após O Senhor dos Anéis, a primeira das três séries a ser escrita, e a Roda do Tempo, saga intermediária entre as duas. Somado a isso, deve-se levar em conta um fator muito mais ligado ao leitor, chamado popularidade. Uma trilogia como a que Tolkien escreveu marcou o fim de uma fase da literatura fantástica e o início de uma nova etapa. Ocasionalmente, sua obra repercutiu durante anos, influenciando novos autores que estavam iniciando sua carreira na época, da mesma maneira que hoje As Crônicas de Gelo e Fogo é considerada o divisor de águas e o pilar criativo para novas obras que tem como regra o tom político e o elevado número de mortes.

Dessa forma, há de se encontrar constantemente em obras pós-Senhor dos Anéis e pré-Guerra dos Tronos aquele cheirinho aventuresco de Tolkien na sua história, como em O Olho do Mundo ou em A Espada de Shannara, de Terry Brooks. O próprio Stephen King pontuou bem essa questão no seu recente livro de 2015 chamado “Sobre a Escrita”:

“Terry Brooks, Piers Anthony, Robert Jordan, os coelhos aventureiros de A longa jornada e centenas de outros. Os escritores desses livros criam hobbits porque ainda os amam e querem mais; estão tentando trazer Frodo e Sam de volta dos Portos Cinzentos porque Tolkien já não está aqui para fazer isso por eles” (Stephen King, Sobre a Escrita: A Arte das Memórias, Caixa de Ferramentas)

A Roda do TempoTudo bem você se inspirar num livro para escrever o seu, afinal, todo mundo tem seu “mentor”. Pegue os movimentos literários brasileiros, por exemplo, e você perceberá que em grande maioria os escritores se baseavam no que estava bombando lá na Europa, faziam algumas alterações para adequar a ideia geral daquela escola ao ideal brasileiro, acrescentavam um pouco da cultura amarelinha (sai cavaleiro, entra índio) e faziam suas obras.

O problema, entretanto, parte daqui: quando você pega emprestado, mas não apresenta nada de novo, de tal forma que a sensação de cópia, ou de que você só mudou os nomes dos personagens da obra original, fica muito forte. Mas esse não é o caso de A Roda do Tempo. O que se tem aqui é uma série de quatorze volumes que se inicia parecendo O Senhor dos Anéis, mas que vai ganhando a cada página originalidade.

Pode-se fazer uma fácil linha sucessória para entender o raciocínio: Tolkien se inspirou na Mitologia Nórdica para fazer sua Terra-Média, mas também inovou ao criar várias línguas para cada um de seus povos; Jordan pegou um pouco do material tolkieniano para escrever A Roda do Tempo, mas acrescentou a ele o tom político que faltava em grande parte do Senhor dos Anéis, além de elementos psicodélicos. Martin pegou a parte das contendas entre países proposta por Jordan para produzir A Guerra dos Tronos, e acrescentou a ela as sanguinolentas reviravoltas e a total falta de compaixão pelos personagens, como esse trecho de A Roda do Tempo deixa bem claro a fonte inspirativa do Velho Ruim, que era grande amigo de Robert:

“Os nobres e as Casas nobres fazem manobras em busca de vantagens. Fazem coisas que acreditam que o ajudarão, ou atrapalharão um inimigo, ou ambos. Em geral, tudo é feito em segredo. Caso contrário, eles tentam fazer com que pareça ser algo totalmente diferente do que realmente é” (Livro 2 de A Roda do Tempo, A Grande Caçada, capítulo 21, página 330)

Dessa forma, fica claro uma progressão dos acontecimentos: um escritor contribuiu desenvolvendo a ideia do outro, apostando em novas sacadas que provaram ser inteligentes e satisfatórias. É uma maneira muito mais coerente abordar os autores como colaboradores indiretos do que como inimigos que tentaram roubar a ideia de outro para fazer sucesso em cima de seu material.

Assim, como A Roda do Tempo, a mais recente saga a chegar aqui no Brasil, pode ser categorizada, se não é um plágio? Trata-se de uma série de transição entre O Senhor dos Anéis e As Crônicas de Gelo e Fogo (sem fazer acepções de qual é a melhor, por favor, mas apenas evidenciando as abordagens de cada uma). Jordan trouxe temáticas comuns em livros do Tolkien, como o Bem contra o Mal, Luz contra Trevas, constantes jornadas dos protagonistas, como também preparou o terreno para o que Martin ampliaria em 1996: o jogo de casas, os conflitos políticos, as intricadas redes diplomáticas.

Em semelhante modo, pode-se entender A Roda do Tempo como o ápice da Jornada do Herói. Sim, Frodo e Sam passam mil páginas amadurecendo, aprendendo e se sacrificando por um bem maior, mas nessa série a escala é outra: são quatorze volumes com média de oitocentas páginas onde há uma minuciosa descrição do crescimento dos protagonistas, desde a rejeição ao que o destino lhes fincou, até o contentamento do que deve ser feito e a administração dos seus feitios, no que certamente pode ser dividido como fases da saga.

“Faço o que faço porque não há outra saída. Ele está me caçando de novo, e, desta vez, acho que um de nós tem que morrer. Não é necessário que todos à minha volta morram também. Muitos já morreram por mim. Também não quero morrer, e nem pretendo, se conseguir evitar” (Livro 3 de A Roda do Tempo, O Dragão Renascido, capítulo 6, página 83)

A Roda do TempoAlém disso, Jordan inova ao subverter alguns clichês que já necessitavam ser escanteados, desde o da mulher cuja importância na história se resume a engrandecer o herói ao precisar ser salva por ele dos perigos, equiponderando assim a participação feminina com a masculina, bem como colocando mulheres no Poder de países ou fazendo-as serem alvo de temeridade pela população pela capacidade que possuem.

“Não é o primeiro homem que olha para mim. Se tivesse a cara de pau de tentar mais alguma coisa, eu o colocaria em seu lugar com uma cara feia. Não preciso que me defenda, Perrin Aybara” (Livro 4 de A Roda do Tempo: A Ascensão da Sombra, capítulo 3, página 90)

Assim, A Roda do Tempo é uma série que atinge um estado que hoje é considerado perfeito para qualquer saga: agraciar leitores de duas das mais conhecidas obras fantasiosas. Tanto os fãs do descritivismo comum de Tolkien em relatar cada passo dos protagonistas e de um rico universo onde há uma exímia quantidade de povos diversos culturalmente, quanto os apreciadores das contendas administrativas de Martin entre facções e de suas guerras civis, podem se sentir abraçados pelo mundo que Jordan criou enquanto O Senhor dos Anéis esbanjava sucesso e A Guerra dos Tronos ainda estava sendo imaginada. Trata-se de uma saga inspirada em uma dessas duas histórias? Sim. É semelhante em alguns aspectos? Certamente. Mas também é original a sua maneira.

“Deixe que o Príncipe da Manhã cante para a terra sobre as coisas verdes que crescerão e os vales que gerarão cordeiros. Deixe que a mão do Lorde da Manhã nos abrigue do Escuro, e que a montante da justiça nos defenda. Deixe que o Dragão cavalgue novamente nos ventos do tempo” (Livro 2 de A Roda do Tempo, A Grande Caçada, Capítulo 50, página 683).

 

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