Escrever é uma Arte


Sim, tal qual o título deste artigo sugere, escrever é uma arte. A escrita de ficção, independentemente de qual gênero, ou se é um conto, novela, romance, poema ou poesia, é uma arte.

É uma arte assim como a música é arte; como a pintura, a ilustração, o teatro, o cinema, a dança, o artesanato… Todas são manifestações artísticas, fruto do trabalho incessante do artista. E sabe o que todas elas têm em comum? Nenhuma têm nada a ver com talento. Pois arte não se trata de o artista ter ou não talento. Nunca foi sobre isso. Nunca será. Não na minha opinião.

Grandes artistas são bons naquilo que fazem não por talento, e sim por dedicação, suor, trabalho duro. Não tem nada a ver com “dom”, tampouco com destino. Ninguém nasce destinado a nada.

Claro que existem pessoas que nascem com talentos absurdos. Indivíduos que, desde pequenos, são capazes de fazer coisas que outros não conseguem. Não estou ignorando isso. Meu ponto é: as pessoas naturalmente talentosas são a minoria.

Via de regra, os artistas são bons naquilo que fazem porque se dedicam todos os dias para isso, e se esforçam ao máximo para serem bons. É essa dedicação, essa resiliência, que os torna únicos e tão fenomenais naquilo que fazem. E é justamente daí que surge a arte. Portanto, ninguém nasce artista; você aprende a ser artista; você se torna artista. É uma consequência; não algo inato.

Agora que isso está claro, vou falar mais sobre a arte da escrita em si, e por que acredito, realmente, que escrever é uma arte.

Igual a todas as outras manifestações artísticas, um bom escritor não nasce sabendo escrever. Se escreve bons romances, não é porque é talentoso (ou talvez até seja, mas é mais provável que não).

Para ser um bom escritor, você precisa ler muito, estudar bastante, se dedicar ao máximo, e praticar muito, mas muito mesmo. Essa é a fórmula. Um ou outro autor pode variá-la um pouquinho; incluir este ou aquele tópico, mas garanto que nenhum incluirá as palavras “dom” e/ou “talento” na lista.

Tal qual aprender um instrumento, como por exemplo o violão, a escrita também requer a prática diária e a dedicação para se desenvolver e se aprimorar. Tal qual um músico, o escritor também precisa praticar, fazer exercícios todos os dias, aprender a teoria (ver aulas online, ouvir podcasts, ler livros sobre escrita criativa etc.), aprender lendo com os mestres do passado e, até mesmo, pegar aulas com escritores experientes, que poderão ensinar alguns “atalhos” que ajudarão bastante durante a jornada de criação.

Percebe? A escrita é uma atividade, um ofício. É algo que se aprende e se aprimora com a repetição. Não é muito diferente de outros trabalhos, sejam eles artísticos ou não.


8 regras do Neil Gaiman sobre a Escrita

Na imagem abaixo, traduzo as 8 regras do Neil Gaiman (um dos maiores autores de ficção da atualidade) sobre a escrita. Após a leitura, você verá como tudo fará mais sentido.

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1ª regra: Escreva;

2ª regra: Coloque uma palavra atrás da outra. Encontre a palavra certa e coloque-a no papel;

3ª regra: Termine o que você estiver escrevendo. Não importa o que você tiver de fazer para isso, termine de escrever;

4ª regra: Deixe de lado. Leia o que escreveu como se nunca tivesse lido antes e mostre para os amigos cuja opinião você respeita e para outras pessoas que gostem de ler o tipo de coisa que você escreve;

5ª regra: Lembre-se: quando as pessoas disserem a você que algo está errado ou que alguma coisa não está funcionando direito, provavelmente elas estão certas. Mas quando as pessoas disserem exatamente o que elas acham que está errado e falarem como consertar isso, elas estarão quase sempre erradas;

6ª regra: Conserte o que estiver escrevendo. Lembre-se que, cedo ou tarde, antes que o texto encontre a perfeição, você terá que se afastar e seguir em frente, e então começar a escrever algo novo. Perfeição é como perseguir o horizonte, então continue;

7ª regra: Ria das suas próprias piadas;

8ª regra: A principal regra da escrita é que, se você escrever com dedicação e confiança, é permitido que você faça o que quiser fazer. (Talvez essa seja uma regra para a vida também, mas é definitivamente verdadeira para a escrita.) Então, escreva sua história como ela precisa ser escrita. Escreva-a com honestidade e conte sua história da melhor forma que puder. Eu não acho que existam outras regras. Pelo menos, não outras que importem.


Prestou atenção às regras? Percebeu que, em momento algum, o autor falou em “inspiração”, em “dom”, em “talento”? Exato, ele não falou porque isso não existe! Uma mera palavra poderia resumir quase todas as regras acima (que não são absolutas, claro, mas são excelentes para mostrar como a arte da escrita funciona), e essa palavra é dedicação!

Abaixo, uma última regra, talvez a mais valiosa de todas. Uma regra que qualquer autor é obrigado a citar para quem o pergunta sobre como a arte de escrever funciona.

Só há uma regra: não há regras.

Só aprendemos a escrever, escrevendo. A fórmula mágica é escrever. Uma palavra após a outra. Escreva e continue escrevendo. Escrever é uma arte. Então permita-se descobrir essa arte. Deixe a arte fluir por seu corpo, mente e alma. Lembre-se: ninguém nasce artista. Então permita-se transformar-se em artista. Permita-se.

Finalizo este meu primeiro artigo sobre escrita criativa (outros virão!) com um trecho de Stephen King, tirado de seu livro “Sobre a Escrita” (Editora Suma, 2015) , provavelmente o melhor livro sobre a arte de escrever jamais escrito.

“A escrita não é para fazer dinheiro, ficar famoso, transar ou fazer amigos. No fim das contas, a escrita é para enriquecer a vida daqueles que leem seu trabalho, e também para enriquecer sua vida. A escrita serve para despertar, melhorar e superar. […] Escrever é mágico, é a água da vida, como qualquer outra arte criativa. Água é de graça. Então beba.

Beba até ficar saciado.”

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