RESENHA #03 – TIGANA – A LÂMINA NA ALMA | A VOZ DA VINGANÇA

Tigana – A Lâmina na Alma | A Voz da Vingança
Autor: Guy Gavriel Kay
Ano de Lançamento: 2014
Nº de Páginas: 368 | 352
Editora: Saída de Emergência Brasil | Arqueiro
Nota no Skoob: 3.9 | 4.3

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SINOPSE

Tigana é uma obra rara e encantadora onde mito e magia se tornam reais e entram nas nossas vidas. Esta é a história de uma nação oprimida que luta para ser livre depois de cair nas mãos de conquistadores implacáveis. É a história de um povo tão amaldiçoado pelas negras feitiçarias do rei Brandin que o próprio nome da sua bela terra não pode ser lembrado ou pronunciado.

Mas anos após a devastação da sua capital, um pequeno grupo de sobreviventes, liderado pelo príncipe Alessan, inicia uma cruzada perigosa para destronar os reis despóticos que governam a Península da Palma, numa tentativa de recuperar um nome banido: Tigana.

Num mundo ricamente detalhado, onde impera a violência das paixões, este épico sublime sobre um povo determinado em alcançar os seus sonhos mudou para sempre as fronteiras da fantasia.

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RESENHA

Antes de iniciarmos a RESENHA deixe-me explicar uma coisa a vocês caros amigos. Tigana foi lançado pela finada Saída de Emergência do Brasil em dois volumes: A Lâmina na Alma e A Voz da Vingança. Eu até hoje não entendi esta divisão, não sei dizer se foi decisão do Editor responsável ou do Autor, de qualquer forma a RESENHA que procede este comentário analisa ambos os livros como um todo, ou seja, não distingue entre volume 1 e volume 2.
Vale ressaltar que os direitos desta obra passaram para a Editora Arqueiro do Grupo Sextante, e até o momento só temos os livros de Tigana do autor Guy Gavriel Kay em nosso Acervo.

ATENÇÃO!!!
Esta RESENHA contém alguns SPOILERS, fiquem atentos!

Pessoas que não gostam de livros de Fantasia, costumam indicar que a principal falha deste gênero é abdicar da relação e condição humana e portanto, não pode ser classificada como uma literatura “séria”. Dizem que são sempre histórias clichês sobre heróis, vilões, princesas indefesas, anões, elfos, dragões e outras criaturas místicas, que não são livros que fazem o leitor refletir. Em suma, dizem que são livros para crianças e adultos infantilizados. Esta pelo mesmo era uma crítica recorrente que foi transmutando ao longo dos últimos tempos.

Talvez o meu maior elogio sobre Tigana de Guy Gavriel Kay é justamente o fato dele conseguir com uma maestria, quebrar estes paradigmas para com estes “críticos da Fantasia” Tigana oferece muito do que é considerado “literatura séria” para o leitor, aqui temos um estudo de sentimentos conflitantes, temos o Amor, o Ódio e a Vingança confrontando-se intimamente nos personagens, e isto meus amigos é de uma beleza estonteante.

“Não existem caminhos errados. Apenas caminhos que você não sabia que teria de percorrer”.

Tigana é uma cidade que se situa em uma península chamada Palma, cujas as noves pequenas províncias caíram sob o domínio de dois exércitos invasores de Ygrath e Barbadior, cada um liderado por um poderoso Rei-Feiticeiro, Brandin de Ygrath e Alberico de Barbadior. Embora as noves cidades vivam sob o domínio de estrangeiros, isto não se reflete de modo tão negativo nas rotinas diárias das províncias, desde que mantenham os pagamentos de impostos e tributos para seus respectivos governantes (que mantém uma desconfortável trégua, embora nos bastidores procuram derrubar o oponente, e tomar para si todo o controle da Palma). A exceção é a província de Tigana…

A feroz batalha para a ocupação de Tigana resultou na morte de Stevan, filho do Rei-Feiticeiro Brandin de Ygrath, que tomado por um atroz sentimento de vingança, ordenou que todos os habitantes daquela província fossem mortos e não por satisfeito, lançou uma poderosa magia sobre a provincia, tal magia tinha como por finalidade mandar todas as lembranças e memórias de Tigana direto para o esquecimento, ou seja, Brandin expurgou dos moradores de toda a Palma todas as memórias e lembranças daquela que já foi a mais bela de todas as províncias, portadora das mais bela torres e arte de todo o continente. E agora, anos mais tarde Alessan, príncipe da finada Tigana reúne um grupo de pessoas e juntos eles planejam derrotar Brandin e Alberico, e retomar à Tigana todas as glórias do passado.

A partir desta premissa acompanhamos Devin, que pode ser considerado o protagonista de um livro onde poderíamos dividir tranquilamente as responsabilidades. Devin é um protagonista muito interessante e carismático que por um lado se encaixa muito bem como um jovem protagonista que descobre os meandros do mundo assim como nós, os leitores. Por outro lado, ele não é de nenhuma forma um personagem tolo, e que age como um idiota assim como em muitas outras histórias. Devin possui uma memória quase fotográfica, que acaba por confundir as toneladas de informações que são absorvidas, e que ao decorrer do livro ele vai montando todo o cenário da história, tal como o leitor. E esta é uma característica muito positiva do livro, é fantástico a forma como você vai aprendendo com o andamento da leitura.

Tigana brilha também na apresentação e caracterização das personagens femininas, há a ruiva Catarina que carrega um pesado fardo de vergonha herdada de seu pai, que no momento em que Tigana mais precisava de sua espada, fugiu juntamente com a mãe de Catarina. Há Dianora que é juntamente com Brandin a personagem mais complexa e convincente do livro. Dianora é filha de Tigana, cujo pai foi morto em sua defesa, ela então se torna discretamente uma das amantes de Brandin e, em seu coração planeja uma maneira de assassiná-lo. Entretanto, em seu íntimo possui um sentimento conflitante de Amor e Ódio por seu suserano.

Brandin e Alberico são opostos um do outro, enquanto o rei de Ygrath governa um império vasto e leal, ele também é bastante manipulador e inspirador para as pessoas que o cercam. Isso é um diferencial para seu reinado, Brandin recompensa verdadeiramente aqueles que ele confia e aqueles que o servem bem, e ele não está além do amor e da afeição, como claramente vimos em seu relacionamento com Dianora. Seu carisma é contruído sobre esta realidade, bem como sobre sua capacidade de fazer as cabeças das pessoas explodirem com um casual toque de magia. Basicamente, Brandin vive na linha tênue do Amor e do Ódio e isto o engrandece enormemente como personagem, tornando-o inesquecível. Brandin não é um visto como um vilão por alguns grupos de pessoas. Ao contrário de Alberico, que em sua insegurança por ser um nobre de menor importância para seu império, contratou um exército de mercenários para moldar o seu reinado nas provincias ocupadas da Palma, e assim ganhar pontos em sua cidade natal (Barbadior) e traçar um caminho para o Império. Considerando que Brandin se destaca como um igual para com o povo que conquistou, Alberico é claramente mais áspero e rude para com seus súditos Ele é mais inseguro em sua posição e tempestuoso em suas emoções, com resultados que são muitas das vezes brutais. Como tal, ele governa de forma ténue, entre a conquista e o fracasso.
Guy Gavriel Kay possui uma escrita lírica, poética e muito bonita. Agora nos resta cobrar a Arqueiro para que tragam ao nosso Acervo mais obras deste fantástico autor.

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