FICHA TÉCNICA

HISTÓRIA DA SUA VIDA E OUTROS CONTOS
Autor: Ted Chiang
Tradutor: Edmundo Barreiros
Ano de Lançamento: 2016
Nº de páginas: 368
Editora Intrínseca


SINOPSE

Uma das principais vozes da ficção científica contemporânea pela primeira vez publicada no Brasil

Um dos autores de mais destaque no cenário da ficção científica, Ted Chiang pode ser descrito como um escritor pouco prolífico: tem apenas quinze trabalhos publicados, entre contos e novelas curtas. A pequena produção contrasta com sua expressiva quantidade de premiações: os oito textos reunidos em História da sua vida e outros contos ganharam no total nove importantes prêmios, dentre eles Nebula, Hugo, Locus, Sturgeon, Sidewise e Seiun.

Publicadas originalmente em volumes diversos, as narrativas de Ted Chiang estão pela primeira vez reunidas em uma coletânea. Entre as histórias dotadas de rigor científico, humanidade e lirismo estão “A torre da Babilônia”, na qual um minerador sobe a famosa torre com a missão de escavar a abóbada celeste; “Divisão por zero”, uma reflexão precisa e devastadora sobre o fim da esperança e do amor, e “História da sua vida”, na qual uma linguista aprende um idioma alienígena que modifica sua visão de mundo.

Com uma prosa límpida e ideias às vezes desconcertantes, Chiang comprova seu inegável talento para a boa ficção científica: a capacidade de contar uma história humana, extremamente bem escrita, na qual a ciência funciona como expressão dos questionamentos mais profundos enfrentados pelos personagens. Um livro repleto de ideias originais e passagens inesquecíveis.

Ted Chiang é um dos mais renomados e premiados escritores de ficção científica da atualidade.

O conto que dá título ao livro, “História da sua vida”, foi adaptado para o cinema sob o título A Chegada, numa produção de Denis Villeneuve, estrelada por Amy Adams e Jeremy Renner, e indicada aos prêmios de Melhor Roteiro e Melhor Direção no Festival de Veneza e selecionada como o filme de abertura do Festival do Rio.


RESENHA

É bem desafiador e complicado escrever sobre um livro de contos. Você pode soar enfadonho, se for longo demais, ou superficial, sendo breve. Mas, como um amante de ficção científica, não consegui resistir em me manifestar sobre este esperado lançamento embalado pelo sucesso nos cinemas do filme “A Chegada”, cuja história é baseada em um dos contos. Este é um daqueles muitos livros que suscitam a questão: “hype” (campanha publicitária positiva pesada) demais, ajuda ou prejudica? Não tem como se aproximar de uma coletânea premiada como esta e não esperar algo “genial”. Mas ela merece todo este reconhecimento ou mais uma vez é a “prova” de que premiações nada significam?

“Hillalum nada disse. Pela primeira vez, ele soube o que realmente era a noite: a sombra da própria terra, projetada no céus.”

O livro se divide em oito contos. São eles: “A Torre da Babilônia”, a história do minerador Hillalum que é responsável por escavar o “céu” da terra ao chegar no topo da lendária “Torre de Babel”. Uma gigantesca torre construída por homens que tinham o desejo de alcançar a Deus e supera-lo em grandeza. Um conto interessante, com um final inusitado, que mostra como o homem tem sua capacidade de raciocínio afetada pelo que está a sua volta e sua pequenez diante do Criador. Um começo promissor para o livro. “Entenda” é sobre a utilização de uma nova droga sintética chamada Hormônio K que estimula a regeneração de neurônios no sistema nervoso central. Quanto mais severo o dano, maior a reconstrução e mais amplo é o desenvolvimento neural (inteligência) do usuário. Mas, e quando a mente de um homem se torna igual a de um supercomputador? Ele perde sua humanidade e se torna uma máquina? E se ele puder se reprogramar e fazer o mesmo com os outros?  Uma premissa interessante contada de forma extremamente repetitiva. “Divisão por zero” aborda os dilemas filosóficos de um casal em meio à dor de uma tentativa frustrada de suicídio. Curto, confuso e pretensioso em criar uma empatia pelos protagonistas. “História de sua vida”, o conto que deu origem ao filme “A chegada” conta a história de uma linguista que é chamada para desenvolver contato com alienígenas que estão invadindo a terra. O enredo é razoavelmente diferente do filme, principalmente no que tange a filha da protagonista, e, caso você não desenvolva um apreço maior pelo processo de descobrimento de uma nova língua e contato com uma raça (povo) distinta, você achará muito entediante. Extremamente descritivo e sem o “drama” que torna o filme tão bom. Suspeito que caso você não tenha assistido a película no cinema se divertirá mais.

 “Os padrões cotidianos da sociedade se revelam sem que eu tenha que fazer esforço algum. Caminho pela rua, vendo as pessoas cuidarem de sua vidas normalmente, e embora nenhuma palavra seja dita as entrelinhas são evidentes. Um casal jovem passa, a adoração ricocheteando na tolerância de outro. Apreensão tremeluz e se firma quando um executivo, com medo de seu supervisor, começa a duvidar da decisão que tomou hoje mais cedo. Uma mulher usa um manto de falsa sofisticação, mas ele cai quando passa ao lado do artigo genuíno.”

“Setenta e duas letras” conta a história de Robert Statton, um habilidoso construtor de Golens (seres retirados do imaginário judeu que seriam criaturas inanimadas levadas a vida através de um nome, voz de comando). O que começa como uma fábula fantástica termina como um drama para abordar de forma confusa questões sociais como inseminação artificial, controle da natalidade por parte dos mais ricos etc. Maçante e uma tentativa frustrada de abordar temas demais em poucas páginas . “A evolução da ciência humana” nem considero um conto. Apenas algumas páginas que parecem uma nota de rodapé de revista científica. “O Inferno é a ausência de Deus” conta a história de três personagens, bem estereotipados, que encontram suas vidas transformadas após a aparição de um ser angelical. Janice a fiel, Neil o incrédulo e Ethan o pragmático. Um grande besteirol que tem a pretensão, de forma caricata, mas sem graça, de discutir o problema do mal diante de um Deus amoroso de forma preconceituosa. Superficial e mal escrito. Por último, o melhor conto da coletânea, “Gostando do que vê: um documentário”, bem ao estilo do seriado “Black Mirror”, fala do desenvolvimento de um visor que faz com que a humanidade toda seja igualmente bonita. Em uma sociedade que supervaloriza a aparência, seria importante “nivelar” a beleza de todos por cima para que possamos prestar atenção na “beleza interior”. Uma ideia bem interessante, mas ao final de um livro tão cansativo e chato não consegue “salvar a lavoura”.

 “Quando você assiste à competição de atletas olímpicos, sua autoestima vai lá embaixo? É claro que não. Pelo contrário, você sente espanto e admiração; inspira-se pela existência de indivíduos tão excepcionais. Então, por que não podemos nos sentir da mesma maneira em relação a beleza? O feminismo nos faria pedir desculpas por ter tal reação. Ele quer substituir estética por política, e, com sucesso que obteve, nos empobreceu.”


SENTENÇA

É inegável a versatilidade do autor. Os contos variam demais tanto em temas quanto na forma da escrita, mas para por aí. Apesar de “bem escrito” e com algumas ideias interessantes, a execução das mesmas não cativa, com exceção do primeiro conto, são bem paradas e a narrativa se arrasta. Me parece uma daquelas raras obras em que o leitor vai se sentir “intimidado” na hora de avaliar e apreciar devido à alta crítica. Algo do tipo: “bom, se não gostei o problema sou eu que não consegui captar tanta genialidade sutil, não o livro” ou pior, fingir uma pretensa intelectualidade para passar uma ideia de leitor maduro. Na verdade, se algum dos contos não tiver um significado especial para você, não vejo como indica-lo para ninguém. Ainda bem que são apenas contos curtos, porque se fosse para sustentar uma obra inteira com as premissas levantadas e a forma como o autor conduz as mesmas ia ser bem complicado. Sem dúvida minha maior decepção literária do ano. Deveria se chamar “História da sua vida monótona e outros contos dispensáveis”.

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