RESENHA #07 – Trilogia: A Primeira Lei – Joe Abercrombie

TRILOGIA – A PRIMEIRA LEI

#01 – O Poder da Espada
Ano de Lançamento: 2014
Nº de Páginas: 480
Editora Arqueiro
Nota no Skoob: 4.3 de 5.0

Sinopse

Sand dan Glokta é um carrasco implacável a serviço da Inquisição de Sua Majestade. Nas mãos dele, os supostos traidores da Coroa admitem crimes, apontam comparsas e assinam confissões – sejam eles culpados ou não. Por ironia, Glokta é um ex-prisioneiro de guerra que passou dois anos sob tortura.

Mas isso nunca teria acontecido se dependesse de Logen Nove Dedos. Ele jamais deixaria um inimigo viver tanto tempo. Só que isso foi antes. Agora ele está decidido a mudar. Não quer ser lembrado apenas por seus feitos cruéis e pelos muitos inimigos que se alegrarão com sua morte.

Já a felicidade do jovem e mulherengo Jezal dan Luthar seria alcançar fama e glória vencendo o Campeonato de esgrima, para depois ser recompensado com um alto cargo no governo que lhe permitisse jamais ter um dia de trabalho pesado na vida. Mas há uma guerra iminente e ele pode ser convocado a qualquer momento. Luthar sabe que, nos campos do Norte gelado, o embate segue regras muito menos civilizadas que as do esporte.

Enquanto a União mobiliza seus exércitos para combater os inimigos externos, internamente se formam conspirações sanguinárias e um homem se apresenta como o lendário Bayaz, o Primeiro dos Magos, retornando do exílio depois de séculos. Quem quer que ele seja, sua presença tornará as vidas de Glokta, Jezal e Logen muito mais difíceis. Agora a linha que separa o herói do vilão pode ficar tênue demais.

#02 – Antes da Forca
Ano de Lançamento: 2014
Nº de Páginas: 496
Editora Arqueiro
Nota no Skoob: 4.5 de 5.0

Sinopse

Nesta ardilosa sequência de O poder da espada, o futuro da União está em três frentes de batalha – e nenhuma delas parece nem perto da vitória.

Sand dan Glokta se tornou o todo-poderoso de Dagoska e tem de impedir que ela seja tomada pelos inimigos – tarefa difícil em uma cidade com muralhas decadentes e escassez de soldados. Além disso, o ex-torturador também precisa desvendar uma conspiração no conselho governante e salvar a própria pele.

Enquanto isso, nas terras congeladas de Angland, o coronel West tem pela frente uma complicada missão: proteger o príncipe herdeiro no campo de batalha e evitar que a inexperiência e a arrogância dele levem todos para a morte.

Ao mesmo tempo, Bayaz, o Primeiro dos Magos, lidera uma expedição que cruzará o continente até a borda do Mundo. Passando por terras amaldiçoadas e esquecidas no passado, ele precisa encontrar a Semente – uma relíquia do Tempo Antigo que poderia pôr um fim à guerra, ao exército de comedores que se multiplica no Sul e aos bandos de shankas que atacam no Norte.

Nesta trama inteligente e de personagens complexos, antigos segredos são revelados, batalhas sangrentas são travadas, inimigos mortais são perdoados – mas não antes de estarem na forca.

#03 – O Duelo dos Reis
Ano de Lançamento: 2015
Nº de Páginas: 576
Editora Arqueiro
Nota no Skoob: 4.4 de 5.0

Sinopse

A União está em guerra. Ao norte, o coronel West e suas tropas recuperaram a fortaleza de Dunbrec, mas a batalha pode se arrastar por anos, porque o rei dos nórdicos não irá se render. É hora de Nove Dedos voltar e enfrentar seu pior inimigo. O problema é que, no calor da batalha, nunca se sabe quando o Nove Sangrento surgirá de dentro dele – e o Nove Sangrento não escolhe lado, só quer matar. Na Terra do Meio, uma revolução camponesa por direitos igualitários e participação política desestabiliza os governos locais. Caberá a Jezal dan Luthar negociar a paz e, se preciso, combater o próprio povo.

Na capital, com o rei doente e sem herdeiros, os membros do Conselho Fechado começam a comprar apoio dos nobres, numa corrida oculta ao trono. Depois de ter escapado por pouco de Dagoska, Sand dan Glokta precisa sobreviver ao jogo político. Para isso, vai usar os recursos em que é mestre: chantagem, ameaça e tortura. Além disso, tropas gurkenses se movem no sul em direção a Adua, dispostas a travar uma guerra santa e levar Bayaz a julgamento. Para salvar o mundo, o Primeiro dos Magos precisa salvar a si mesmo, porém há riscos enormes quando se mexe com magia. E nada pode ser mais arriscado do que quebrar a Primeira Lei. O duelo dos reis é um épico sombrio e brilhante, um final de tirar o fôlego para a trilogia que redefiniu a literatura fantástica.


RESENHA

“Eu me lembro. A única coisa pior do que a escuridão é quando a luz chega. As perguntas sempre vêm junto.”

Na trilogia A Primeira Lei, o escritor britânico Joe Abercrombie produziu uma das mais impressionantes primeiras trilogias de Fantasia lançadas nos últimos anos. É notável não somente pelo seu enredo (que não possui a complexidade de várias outras obras, mas é simples e objetivo) ou pela construção complexa dos seus brilhantes personagens, mas pelo estudo nas entranhas da condição humana, envolvendo seus medos, traumas e decisões, que por vezes expõe o pior do ser humano. Aqui não temos os tradicionais dragões, elfos e anões. Temos sim criaturas fantásticas, mas que são inseridas no contexto da história sem ter uma relevância que não seja natural. Elas estão lá como um plano de fundo, fazem parte do enredo tal qual uma cidade ou seus habitantes assim o faria e entram na história não para forçar o rumo do plot principal, apenas para ilustrar o mundo como um todo. Em a Primeira Lei temos uma história de sangue, suor, vingança e crueldade. Temos o gosto de sangue em nossos lábios, temos os ferimentos expostos, em carne viva.

“- Nunca é tão simples assim, não é? Ninguém é só bom ou mau. Nem você. Nem Bethod. Nem ninguém.
– Não. – Logen ficou sentado olhando as chamas se moverem. – Não, nunca é tão simples assim. Todos temos nossos motivos. Homens bons e homens maus. Tudo depende do lado em que você está.”

Aqui não há uma separação clara do bem e do mal nas ações de seus personagens, toda a estrutura de construção destes pontos, depende do ponto de vista e do momento inserido. E para mim sem dúvidas esta é a maior riqueza da obra. Os bons não são bons o tempo todo assim como os maus não são maus o tempo inteiro, tal como nós seres humanos, vítimas de nossos impulsos e de nossa natureza. Joe soube lidar muito bem com isso ao longo dos três livros. Sand Dan Glokta, o sádico e traumatizado inquisidor não evanescerá de nossas mentes tão cedo, assim como o complexo e brutal Logen Nove Dedos ou o enigmático primeiro dos magos Bayaz e suas escolhas duvidosas. Joe Abercrombie assemelha-se muito bem com George Martin nestes pontos, ambos escrevem excepcionalmente sob a linha tênue entre o bem e o mal. Mas não, não vamos comparar um ao outro ou dizer quem é melhor ou pior, estamos apenas ilustrando as linhas de pensamentos destes autores na construção da personalidade de seus personagens.

“Já deveria saber. Só os amigos ficam para trás. Os inimigos estão sempre nos calcanhares da gente.”

Joe Abercrombie é mestre em descrever cenas de batalhas, aos que leram irão concordar e aos que ainda vão investir nas obras, sem dúvidas não vão se decepcionar. Joe é minucioso em cada cena de batalha, as lutas são um deleite para nossa imaginação. Os fãs de Bernard Cornwell vão se sentir em casa.
A Primeira Lei possui suas falhas, por vezes com um ritmo lento demais e em outros tempos um pouco mais acelerado do que deveria ser. Na minha opinião poderia ter se dado uma atenção maior aos embates políticos da saga, poderíamos ter vislumbrado mais descrições do mundo como um todo. Ao final dos livros temos um sentimento de que é uma ótima história com excelentes personagens, mas que poderia ter sido ainda melhor, um gosto de quero mais fica latente. E isso reflete nas ações do autor que já criou spin offs da série (não publicados no Brasil) e agora está trabalhando em uma nova trilogia dentro do mesmo universo. Fiquemos atentos às novidades!

“O ódio era uma arma poderosa nas mãos certas. O Nove Sangrento odiava tudo. ”

No primeiro livro o Poder da Espada, temos um ritmo um pouco mais lento que os demais, somos apresentados aos nossos personagens e isso deteve certo tempo, cada qual recebendo seu ponto de vista de maneira exclusiva assim como em outras narrativas. Na sequência, Antes da Forca temos um ritmo muito mais acelerado culminando com um final surpreendente, neste livro os personagens lutam para se manterem altivos em seus objetivos, estes ainda não tão claros quanto se imagina. No terceiro e último livro, O Duelo dos Reis temos o ápice da saga, os mistérios são desvendados e reviravoltas se fazem presentes. O final é como deveria ser, bem construído e surpreendente.

PRINCIPAIS PERSONAGENS

“Uma escolha entre matar e morrer não é escolha. É preciso ser realista com essas coisas.”

Logen Nove Dedos (Nove Sangrento) – Típico do estereótipo bárbaro, bruto e temível. Marcado por uma vida de batalhas e enfrentamentos sangrentos que deixaram cicatrizes por todo seu corpo. Teve sua família assassinada por criaturas conhecidas como Shankas. Possui uma lealdade de guerreiro e um coração enorme por baixo de todas suas cicatrizes, tem diversos momentos cômicos, devido ao seu estilo bruto, durante os livros. É temido por todos devido ao seu modo “Berserker”que é “liberado” durante as piores batalhas. Nestes momentos Logen deixa de ser Logen e se transforma em Nove Sangrento e nesta personalidade caros leitores, ele não diferencia aliados de inimigos e seu único objetivo é matar quem quer que estiver na sua frente.

Jezal Dan Luthar – Jovem capitão de Adua, Jezal é a princípio tudo o que podemos detestar em um personagem, egoísta, arrogante, esnobe e covarde. Vive somente para impressionar os outros e para atender seus objetivos superficiais. Adianto que ao longo dos 3 livros é sem dúvidas o personagem mais “testado” pelo autor, passará por momentos que desencadearão mudanças em sua forma de enxergar o mundo.

“Será que alguém já teve uma variedade tão grande de mortes para escolher? O canto de sua boca se retorceu para cima. Mal posso esperar para começar.
Aquela mesma pergunta vinha à sua cabeça, repetidamente, e ele ainda não tinha resposta.
Por que faço isso?
Por quê? ”

Sand dan Glokta – Glokta já foi um dos guerreiros mais completos de todo o país que tinha um futuro brilhante, interrompido após ser capturado e torturado durante 2 anos pelas forças inimigas. Sua vida foi moldada por todas as cicatrizes e limitações obtidas durante este processo. Hoje Glokta é um inquisidor amargo que não têm limites para buscar informações de seus prisioneiros usando todas as ferramentas disponíveis. Sand é seguramente o personagem mais marcante da trilogia, nos seus capítulos temos à disposição todos os seus pensamentos sarcásticos e sádicos. Muitos o comparam à Tyrion de Game of Thrones, pelo seu jeito irônico ao lidar com as situações. Uma coisa é certa, Sand dan Glokta irá fazer a você nobre leitor, gargalhar e ficar tenso, tudo num curto intervalo de tempo.

Bayaz o primeiro dos Magos – Poderoso mago que vive isolado em uma biblioteca ao norte de Ádua já há alguns séculos, possui olhos e ouvidos em vários lugares e é considerado uma figura lendária na capital, tendo por muito tempo sido um personagem importante nas ações que envolve o reino. De maneira fortuita(?) encontra-se com Logen e a partir daí decide formar uma equipe com indivíduos singulares em busca de terríveis segredos e conspirações. Bayaz é um personagem enigmático e não muito confiável, em tempos é um velho simpático e afável para em outros se transformar numa figura temível e bastante persuasiva. O primeiro dos magos ganha grande destaque no segundo e terceiro livro. Vocês vão se surpreender com este personagem.

“Ferro havia aprendido a não confiar em nada além de si mesma.”

Ferro Maljinn – Uma escrava fugida do Império de Gurkhul, Ferro possui uma selvageria indomável e vive somente para alcançar sua vingança contra àqueles que a torturaram. Ela vai ganhando mais espaço a partir do segundo livro (Antes da Forca), e chega no terceiro como uma das figuras mais importantes da saga, vale ressaltar suas habilidades enquanto lutadora, sua sede de sangue é algo que se encaixa perfeitamente para o andamento da história. Ferro é uma personagem extremamente forte e com uma personalidade aflorada, seus momentos com Logen e com Bayaz rendem algumas boas gargalhadas.

“– Corpo encontrado flutuando no cais – sussurrou Glokta. – Inchado de água do mar e horrivelmente mutilado… Impossível… impossível de ser reconhecido. – Ele está pronto para falar. Está gordo, maduro e prestes a explodir. – Os ferimentos foram infligidos antes ou depois da morte? – perguntou jovialmente, olhando em direção ao teto. – Será que era homem ou mulher? – provocou Glokta, e deu de ombros. – Quem sabe?”

Existem diversos outros personagens principais como Collem West, um soldado valoroso do reino, Ardee Westirmã de Collem e não podemos esquecer do grupo ao qual Logen fazia parte antes dos eventos do primeiro livro e que possui capítulos fantásticos, Cachorrão, Tul Duru, Barca Negra, Sinistro, Três Árvores, Forley.

Comentários